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Marcus Arboés
2 min readJul 14, 2019

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Acordei desolado. Meus óculos estavam jogados de lado na cama. O travesseiro do motel marcava meu rosto dolorido. Pensei em levantar, mas o peito estufado e doente de amor me prendeu na cama bagunçada.

Tentei dormir e fingir que nada tinha acontecido, mas a luz do sol driblava a cortina mal fechada.

O vinho bateu forte na minha cabeça. Bateu no seu lugar. Tentei levantar, mas estava baqueado o suficiente para cair sobre o carpete vermelho e sentir, de novo, a vontade de não encarar o dia.

Me apoiei na cama para tentar ficar de pé, o cobertor veio junto e fiquei jogado de novo, forçando o esboço de uma risada muda de como era simbólico o desdém do mundo comigo. Me apoiei então no meu sentimentalismo ingênuo e fútil, para ver se pelo menos assim eu levantava, já que era a última opção visível.

É, eu não consegui. Me rastejei para o banheiro, ralando os joelhos sem pena de mim. Abri a porta e fui atacado pelo mormaço. Tentei me levantar com a mão sobrepondo a pia, mas ela deslizou. Eu estava acabado e a iluminação daquele espaço apertado ofuscava meus olhos.

Meus olhos arderam como nunca, estavam secos de tanto chorar o desalento da ida dela. De mais uma que não quis ficar.

Senti meu corpo todo esquentando. Meu peito inchou de uma dor horrível que me pedia para sair de mim a qualquer custo. Alcancei o vaso numa falha tentativa de ficar joelhos. Minha visão ofuscou e mantive os olhos fechados.

Nem precisei fazer esforço. Vomitei tudo. Expulsei de mim toda a mágoa da excessiva expectativa que crio onde não posso e não devo me apoiar. Sem choro, sem dor, sem mais tentativas burras de ser quem eu não posso para quem não me pensa. Tudo jogado fora.

Senti um frio leve e mórbido se aproximar pelo chão do banheiro, que eu havia esquecido ser tão gélido e rígido. Notei ao bater a cabeça no chão. Eu olhava para o teto, a lâmpada parecia se dividir em 30, eu até tentei contar.

Mas meus olhos fecharam. E finalmente dei uma risada, de quem sabia que estava inutilmente pronto para superar de novo. De novo.

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Marcus Arboés
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Written by Marcus Arboés

Aqui é um pouco de mim, sem amarras. Falo do que me empolga.

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