A lojinha da rua de trás

Marcus Arboés
3 min readApr 3, 2019

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Quando eu ainda era um adolescente, minha mãe, certa vez, me mandou pegar uma encomenda que ela havia feito na “lojinha da rua de trás”.

Era uma loja pequena, mas cheia de produtos à venda. Roupas, utensílios de costura, material escolar… tinha de tudo um pouco.

Entrei na lojinha com pressa, queria voltar para casa logo, mas fui surpreendido.

Nunca antes eu havia visto algo tão belo quanto ela. Até esse dia, ninguém havia me despertado a atenção como ela.

Ela era especial, senti na hora em que entrei na loja. Ela estava me devorando com um olhar fixo.

Fiquei nervoso. Me apressei e falei com a proprietária da loja, Dona Cláudia, para pegar logo a encomenda.

Que bobo… ela realmente mexeu comigo.

Mexeu ao ponto de eu sonhar com ela e acordar de noite com o coração pulsando. Eu não conseguia parar de pensar em como ela me olhava, daquela maneira única.

Tentei ocupar minha mente, era estranho cogitar estar apaixonado.

Alguns dias depois voltei na loja da Dona Cláudia para comprar um corretivo e ela estava lá. Rapidamente eu notei, ela não parava de olhar para mim. Fiquei nervoso.

Depois de notar que ela sempre estava na loja, comecei a sempre passar ali na frente, todos os dias.

Todos os dias. Todos, todos, todos. Eu sempre tirava um tempo para admirar a beleza dela, e ela sempre me olhava de longe, me deixava nervoso.

Nesse ponto eu tinha certeza de que ela sabia que eu estava apaixonado.

Depois de muito tempo eu decidi arriscar. Entrei na lojinha e pensei em dar um oi, mas ela estava sempre tão séria. Não tive coragem…

Na verdade, eu era um covarde. Não fui corajoso o suficiente nem para perguntar seu nome para a Dona Cláudia.

Eu tinha que tentar de alguma forma. Cheguei a sentir uma pontada de necessidade de me aproximar.

Mais uma vez passei na frente da loja. Olhei para ela nos olhos. Arrisquei um sorriso, mas ela não devolveu.

Eu não entendi.

Por que ela não sorriu de volta? Era ela quem sempre me encarava, foi ela quem começou a mexer comigo. Por que ela sempre estava tão séria?

Que angustiante foi lidar com a sensação de não ter tido resposta dela.

Passei dias e dias sem ter coragem de pisar na rua de trás. Tinha medo de dar de cara com ela e ficar parecendo um idiota… onde eu estava com a cabeça? Sorrir para ela… tolice, vergonhoso.

Eu não tinha amigos com quem falar sobre e tinha vergonha de desabafar com a minha mãe sobre o meu primeiro amor. Era estranho.

Depois de muito tempo, vi que não podia fugir desse sentimento.

Passei por cima da vergonha e fui até a loja da Dona Cláudia, eu iria finalmente falar com aquela que eu amava, iria dizer de vez o que eu sentia, por mais que ela me respondesse com um não.

Entrei na loja e logo percebi… aquele olha que me fitava sério, aquela presença forte… ela não estava mais lá, o tudo virou nada.

— Onde ela está, Dona Cláudia? — perguntei gaguejando.

— Ela quem, menino?

Olhei para o lugar onde geralmente ela ficava e pensei sozinho, enquanto a dona da lojinha me observava.

A loja ficou em silêncio até Cláudia me fazer uma última pergunta antes de eu ir embora de vez daquele lugar.

— Você está falando daquele manequim para o qual você sempre ficava olhando? Quebrou semana passada e mandei trocar.

Manequim?!

Eu demorei um pouco para me dar conta.

Mas até hoje sonho com aquele rosto, com aqueles olhos vidrados em mim, com alguém que nunca existiu de verdade.

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Marcus Arboés
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Written by Marcus Arboés

Aqui é um pouco de mim, sem amarras. Falo do que me empolga.

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