Admiradora da tela

Marcus Arboés
1 min readMar 21, 2019

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Não sei em que momento deu errado.

Na verdade, eu não sei em que momento isso me pareceu, de alguma forma, correto. Mas tentamos.

É que a gente se gostava diferente… não sei. O que você acha?

A gente se gostava forte. E eu era o artista que fazia a mostra de pinturas que você não podia usar para decorar sua casa regrada.

Mas eu lembro de, várias vezes, você visitar a exposição, rir e dizer que te agradava.

De encontro a encontro — distante — você sorriu: me mostrou a bela-arte, que caminhava por ares além da mera exposição mequetrefe que eu fazia com os quadros reciclados de amostragens passadas.

Você queria ver os quadros e eu queria te ver sorrindo.

Por isso eu fazia mais, pintava mais. Gastava. Era para que você sorrisse — e eu conseguia.

Você lembra.

E vai lembrar, eu sei. Por mais que meus quadros malfeitos não caibam na tua parede.

São peculiares demais, assumo. Meu estilo artístico é diferente do papel de parede interno do teu lar.

Mas eu queria que você levasse um. De graça… ou em troca de um sorriso daqueles.

No fim da exposição, desmontei os cavaletes, separei as telas, arrumei as malas e olhei para trás. Eu pensei que veria teu brilho uma última vez, mas te vi chorando.

Ainda que belo, teu rosto pintado no horizonte estava manchado.

Lágrima sobre tela.

A última lembrança de um pintor apaixonado, que não guarda o passo e segue, mas sente falta.

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Marcus Arboés
Marcus Arboés

Written by Marcus Arboés

Aqui é um pouco de mim, sem amarras. Falo do que me empolga.

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