Analisando NPC Overpower no RPG

Marcus Arboés
5 min readDec 3, 2019

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Arte: autor desconhecido

Em quase toda aventura de RPG, o mestre acaba criando um NPC (personagem não jogável) pelo qual ele é apegado, ou para o qual ele criou um background mais elaborado e significativo para a história.

O destaque (bom ou ruim) começa quando esse personagem é um NPC overpower. Os NPCs podem ser inúteis, fracos, equilibrados, mas os overpowers são personagens que possuem uma habilidade absurda, atributos elevados, ou seja, são bem mais fortes que os personagens interpretados pelos jogadores.

Se considerarmos animes e mangás, podemos relembrar alguns personagens overpowered: Shaka de Virgem (Saint Seiya), Saitama (One Punch Man), Meliodas (Nanatsu no Taizai), Lelouch (Code Geass) e muitos outros.

O uso de um personagem super poderoso na aventura pode causar desconfortos aos jogadores e brigas entre eles, mas, se for bem utilizado, deixa a história muito mais legal e até pode criar apego dos jogadores por ele.

A única regra generalizada que posso dizer sobre NPC OP com meu tempo de experiência é: seu personagem nunca vai agradar todo mundo.

É por causa dessa frase que eu me recordo de vários exemplos que mostram como a criação de um NPC poderoso pode prejudicar a aventura. Muitas vezes o problema não está nele existir, mas sim em o quanto e de que forma você usa ele.

A pior maneira é deixar esse NPC seguir muito tempo da aventura junto dos jogadores, principalmente colocando ele para lutar contra os mesmos monstros que os jogadores, pois eles serão fracos demais para o NPC ou fortes demais para os jogadores — ou seja, desequilibrado.

Isso unanimemente causaria um desconforto geral na sua mesa. No entanto, há uma maneira de contornar: contra uma grande horda de criaturas, ele enfrentar boa parte dos inimigos. Ainda assim, a partir do momento que sempre acontecesse, ficaria repetitivo e entediante para os jogadores.

Outro modo em que eles podem ser inseridos, é numa missão específica, onde ele precisa realizar um grande tento e, para isso, precisa da ajuda dos players. Talvez passar por um portal mágico que seria destruído caso ele tentasse, por ter muito poder… vai da criatividade de quem está narrando.

O único problema desse caso é você estar focando demais em um NPC e acabar tirando a possibilidade de um ou mais jogadores da mesa se destacarem e ganharem foco narrativo em certa parte do jogo.

Em missões, eu gosto muito dele aparecer para enfrentar um inimigo ultra forte, por exemplo: eu joguei uma aventura onde surgiu um oponente na dungeon que era praticamente um Deus. Não podíamos derrotá-lo, mas um NPC poderoso conhecido apareceu e começou a lutar com aquele inimigo para nos poupar tempo e abrir caminho.

Outro grande problema acontece quando o mestre gosta ATÉ DEMAIS daquele NPC. Quer forçar ele em diversas situações. Os jogadores vão começar a criar desgosto de ter aquele cara aparecendo sempre que o jogo tá ficando mais complicado.

Entra em cena o do NPC herói. Eu acho muito interessante quando um personagem inserido como poderoso no começo da aventura reaparece como herói e salva os PJs de um inimigo super poderoso ou invencível, principalmente se a narrativa é bem feita.

O problema é quando isso acontece frequentemente. Eu mesmo já caí nessa de acabar gostando mais de um NPC que eu criei e colocar ele para aparecer demais, sempre salvando os jogadores em momentos de perigo (era um RPG de apocalipse zumbi).

Tudo o que eu disse foi refletido antes, e essas conclusões me levaram a um ponto: para o seu NPC overpower ficar querido ou significativo na mesa, ele precisa ser muito bem inserido na história. E aqui vão maneiras como eu gosto de colocar esses personagens não jogáveis na aventura.

  1. A mais fácil, usando o background de algum dos jogadores: uma antiga paixão de uma maga, que ressuscitou dos mortos; o antigo rival do mestre de um dos jogadores, que voltou para ajudar em forma de redenção, tanto faz… sempre dá para usar algo.
  2. Em RPG com Guilda, ter um membro ou líder muito forte: ele sempre vai estar te passando missões e ajudando na tua evolução ou vai ser aquele personagem inacessível que sempre está topando as quests mais arriscadas e complicadas. Lá na frente, numa grande guerra, ele aparece e mostra todo o seu poder numa narrativa brilhante.
  3. Um personagem inesperado e aparentemente fraco: no começo da aventura, os jogadores acabaram ajudando um NPC aparentemente não importante — mendigo na rua, marinheiro perdido, bêbado na taverna, priester pobre, donzela doente e indefesa. Lá na frente, em um momento tenso, ele reaparece e mostra um poder inesperado, mas que já havia aparecido em forma de pista.
  4. Um personagem antes equilibrado que evoluiu: nas primeiras missões, os jogadores contam com a ajuda de um NPC, que acaba sobrevivendo. Anos depois, eles reencontram esse mesmo personagem como aliado numa batalha final. Ele está comandando um batalhão e virou um super mestre em estratégia. Ou, por exemplo, ele pode simplesmente ter sido abençoado e ganhado um poder divino que o deixou forte como um semideus.
  5. Um vilão que acaba se tornando aliado: em uma quest, ainda no começo da aventura, os jogadores acabam pegando uma missão de parar ou derrotar o tento de um vilão, eles conseguem porque o vilão se rende (seja lá qual for o motivo), mas visivelmente, não tinha como derrota-lo. Em um futuro, eles acabam enfrentando um Boss super poderoso e invencível, que está quase os vencendo, mas eles não imaginavam que esse boss era um arquirrival daquele poderoso vilão do começo da aventura.
  6. NPC engraçado: esse é visivelmente absurdo, e é bom para campanhas que têm uma pegada mais de humor. Ele acaba sendo um meme da aventura por causa de algo muito engraçado que fez, mas lá no fundo, ele possui um poder imensurável e, geralmente, suas intensões são estranhas.

Sobre como esse personagem vai retornar, depende de você. Considerando tudo o que foi falado, deixo algumas dicas, como: não deixe ser repetitivo, não trate o NPC como um protagonista, narre de forma épica, dê algum carisma para ele ou torne ele importante para um ou mais jogadores naturalmente.

Algo que eu gosto muito de fazer, e vale ressaltar, é fazer esse NPC ser derrotado em algum momento. Passar a sensação para os jogadores de que aquele NPC sempre vai deixar tudo ficar bem de alguma forma, mas ele ser capturado ou cruelmente morto por um vilão absurdamente mais poderoso que ele. Depois de tornar o NPC carismático, isso pode dar um ar mais incrível ainda para o seu vilão.

O mais importante, é lembrar que o foco está no seu jogador e não no personagem que você criou. Os jogadores estão jogando RPG para o foco da aventura girar em torno deles, dos objetivos deles. O NPC deve aparecer atrelado a algo que encaminhe a história para um ponto em comum com aquilo que diz respeito aos jogadores.

Se você pensar muito nisso tudo antes de criar, você evita que seu jogador se frustre, evita que eles falem mal de você como mestre, evita que eles tentem matar o NPC overpower o apunhalando pelas costas… evita um monte de besteira.

Eu não deixaria de colocar. Coloque, mas saiba como utilizar! E lembre, suas criações — sejam elas histórias, dungeons, inimigos, personagens — nunca vão agradar a todos na mesa.

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Aqui é um pouco de mim, sem amarras. Falo do que me empolga.

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