Esqueceram que Endrick tem 16 anos?
16 anos de idade, R$ 407 milhões de reais, 11 jogos no ano sem gols e uma chuva de críticas. Até que ponto justas? Potencializadas por quem e por quê? Vamos refletir um pouco sobre Endrick.
Com 11 jogos na temporada e nenhum gol marcado, a mais promissora joia brasileira da atual geração, Endrick, do Palmeiras, vive um jejum de gols e a primeira experiência com críticas em massa. De torcedor a jornalista.
Para muitos, como jogador profissional, o garoto de 16 anos já deve ser criticado e cobrado como um adulto, afinal, é considerado um fenômeno. Essas críticas fortalecem narrativas e têm motivo. Vêm de todos os lados.
Mas até que ponto as críticas são justas?
Vejo debates sobre o garoto nas redes sociais e muitas das cobranças de torcedores — de Palmeiras ou de rivais pelo Brasil — possuem alguns padrões repetitivos, boa parte deles bem problemáticos.
- “Quando eu tinha 16 anos já acordava cedo para trabalhar e era cobrado”.
- “Ficar abalado com crítica é mimimi”
- “Chorar após sair do jogo é fragilidade”
- “É profissional, tem que ser tratado como adulto”
Esses são os tipos de comentários que mais leio por aí. Todos partem de uma narrativa social adoecida. A mesma narrativa que justifica comportamento abusivo de patrões e clientes com menores aprendizes, por exemplo, afinal, se ele está empregado, deve ser cobrado da maneira devida.
As críticas nesse sentido não consideram estilo de jogo do time, características reais do jogador e, acima de tudo, fingem que ele não tem 16 anos — isso influencia no físico, na técnica e principalmente no psicológico.
Como Dudu disse, as críticas para Endrick estão sendo cruéis.
E quem influencia essas opiniões?
Além do fator sociocultural já citado, vamos começar pelos influenciadores e perfis de grande alcance nas maiores redes sociais. Quanto mais se fala em algo, mais se reverbera como relevante para a opinião de massa. No nosso modelo de comunicação hoje, todo mundo pode ser um formador de opiniões. E, com isso, pessoas, sem discernimento, usam o alcance para propagar uma ideia que pode vir a ser nociva.
Em segundo, perfis de credibilidade, que deveriam ser mais responsáveis, mas se perdem em algumas situações e vendem essa responsabilidade pelo engajamento. O perfil do Sofascore é um grande exemplo, postando números frios em momentos oportunos que gerem engajamento.
As pessoas gostam de se basear em números para reforçar opiniões. Isso porque dado quantitativo é algo que passa credibilidade, mas, no futebol, é muito fácil distorcer números fora dos contextos para dar poder a qualquer ideia que queiramos.
Em terceiro, o jornalismo irresponsável. Infelizmente, faz parte da nossa cultura de imprensa atacar os jogadores sem nenhum embasamento. Falo de dentro do meio: a maior parte dos comentaristas esportivos não olha a fundo para o futebol de verdade e agem por ego ou interesse.
No futebol brasileiro tudo é analisado pela situação e pelas ondas de engajamento. Ninguém liga para quem se torna vítima na história. Esqueceram que o jogador de futebol não é um robô. Se já é pesado para um adulto, imagine para um menino.
Psicológico: como o adolescente está sendo afetado?
Curioso que se fale de “mimimi”, quando hoje temos uma geração cheia de problemas psicológicos justamente por naturalizarmos o abuso na sociedade. E, quando tínhamos 16 anos (os adultos), a sociedade era diferente.
Hoje, o acesso à informação é muito mais fluido, acelerado e ilimitado. Todo mundo se sente no direito de falar o que quiser e tem essa possibilidade na palma da mão. Com isso, a cobrança é potencializada… mais ainda quando você é um adolescente. Vamos lá, vocês já tiveram 16!!!
Mesmo que tenha um acompanhamento psicológico dobrado, ainda assim vai sentir. Um garoto fenomenal, talentoso, com sede de jogar, sempre vai querer dar a resposta.
Já estamos vendo: o choro é o resultado, mas, no futebol, há mais sintomas. A pressa para chutar, a expressão de irritação, os chutes e gestos técnicos errados. Endrick tem se mostrado nervoso.
Erros fazem parte do futebol. Se você pressiona um adolescente, é bem provável dele errar ainda mais.
Há explicação tática?
Endrick e Abel Ferreira não parecem ter um “casamento tático” como vemos em Ganso x Diniz ou Barbieri x Artur, onde o estilo de jogo adotado pelo treinador se conecta naturalmente com as principais características daquele atleta.
Apesar de eu não ver esse como o principal problema, não posso só criticar outros comentaristas sem fazer minha reflexão. O nervosismo causado pela pressão o afeta de primeira mão, mas há algo que poderia dar mais autoconfiança para o jogador.
Pegando o último jogo como exemplo para um padrão que acontece quase sempre. Geralmente, o time tem uma linha de três atrás com um dos laterais avançando mais. No ataque, a estrutura sempre sai de um 4–3–3, com um volante e dois jogadores no entrelinhas (Veiga circulando e armando, Menino atacando espaços), para um 4–2–4, com dois abertos na ponta e dois por dentro.
Independente dos esquemas táticos utilizados, precisamos olhar para o comportamento do Palmeiras. Noestilo de jogo vencedor de Abel Ferreira — que demorou a ser assimiliado — , os jogadores precisam ocupar zonas do campo para manter a estrutura do time e ter superioridade nos diferentes espaços do campo. Por isso, no Palmeiras, o jogador tem que “guardar posição”.
E como isso afeta o Endrick?
Se observarmos o Palmeiras, percebemos que Veiga é o jogador com mais liberdade de se aproximar de outros setores do campo, até pelas suas características de condução e criação. Enquanto isso, o centroavante precisa dar profundidade no campo e se desmarcar mais próximo do gol.
O próprio Abel Ferreira já falou disso.
Enquanto Abel quer que o atacante jogue perto da área, ele anseia por estar perto de onde o jogo está acontecendo. Basta ver seus jogos na base: Endrick saía constantemente da referência para se aproximar dos criadores do time e até jogar de frente, driblando, atuando por dentro.
Num modelo de jogo onde você precisa estar mais fixo, a impaciência pode aumentar e a autoconfiança, por participar menos do jogo, aumentar. É algo delicado que exige uma adaptação que, talvez, seja ainda mais complicada para um garoto.
Ou seja, Endrick não precisa jogar de ponta, jogar de meia ou algo assim. A questão não está na posição e sim na relação do jogador com o modelo de jogo. Acredito que ele renderia se tivesse mais liberdade para descer e oferecer apoio aos meias.
Ainda assim, isso não solucionaria, já que o atleta está pressionado. Como disse Abel, antes de qualquer coisa, Endrick “precisa de um abraço”.
E você? Tem sido responsável com as críticas?
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