Marcelo, Dinizismo e Magia
Marcelo no Fluminense é a grande surpresa do momento. Uma das maiores contratações aqui vistas nos últimos anos que, se entregar o que pode, aos 34 anos, com certeza sobe o “sarrafo” do nível técnico do futebol brasileiro.
Tecnicamente, um dos melhores laterais esquerdos da história do futebol. Multicampeão, dos poucos da posição que puderam ser chamados de craque, mas que esteve em baixa após a Copa de 2018 e com certeza trará dúvidas relacionadas à idade, peso e até à saúde financeira do clube, como sempre acontece na torcida e em parte da imprensa.
Que dúvida traz Marcelo?
É impressionante como após a rescisão, esse mosaico de fotos do Marcelo visivelmente acima do peso repercutiram nas redes sociais. Vivemos, inclusive, uma verdade absoluta de que o Marcelo está acima do peso e é assim que chega, mal fisicamente. Não sei da condição atual, mas por que esse seria um problema?
Essa é uma questão solucionável. O jogador pode se recuperar fisicamente e ter condições de jogo. Mas, ainda assim, muitos torcedores do próprio Fluminense, de rivais e jornalistas que não pensam fora do óbvio vão dizer: “vai jogar bem aqui sem ter jogado nada na Grécia?”
Me divirto com esse tipo de fala sendo desbancada ano após ano. É uma das regras absolutas mais sem fundamento do futebol. Ninguém considera se o estilo de jogo, a maneira como está sendo escalado, as relações pessoais dentro e fora do clube, e o principal, psicológico, estão afetando no rendimento do atleta.
Dentro disso, tenho minha hipótese. Só uma hipótese. Acredito que o maior problema para Marcelo desde o declínio no Real Madrid até o rendimento físico abaixo do esperado para um profissional venham da falta de motivação. Algo comum que acontece com muitos jogadores ao passarem do auge. Iniesta é um grande exemplo disso.
Assim, minha única dúvida em relação a ele não é sobre físico ou qualidade, é sobre o quanto vai conseguir se motivar nesse novo desafio. Por que, sinceramente, entre ter dúvida com qualquer outro lateral por aí e Marcelo, é mais legal ter expectativa no maior da posição na geração.
O Dinizismo
Quando falamos de dinizismo, não entramos só no modelo de jogo, com muita liberdade, aproximações e sistemas de jogo abertos, como ele mesmo trata. Falamos de um futebol praticado no dia a dia nas relações interpessoais, algo que vai de fora para dentro de campo. Isso me faz pensar que pode vir a ser um bom cenário para Marcelo
O Fluminense de Fernando Diniz, desde a primeira passagem, tem sido um lar para que jogadores se reinventassem. Naquele primeiro momento, Caio Henrique mudando de posição e despontando internacionalmente como lateral esquerdo; Allan recuperado de uma depressão. Hoje, um Fluminense que potencializa a individualidade dos seus principais jogadores e, contando com a primeira ajuda de Abel Braga, tem o gênio Ganso jogando em ótimo nível.
A filosofia de jogo do Dinizismo traz a diversão do jogo de rua/várzea/terrão, da infância, dos sonhos, para o futebol profissional. Encanta ver a liberdade de movimentação, aproximação, criação e de envolvimento que os jogadores têm desde a construção até a fase de ataque.
O jogo funcional, modelo tático que traz toda essa liberdade e desenhos táticos móveis e difíceis de decifrar, oferece muita autonomia para os jogadores e valoriza quem gosta de estar perto de onde o jogo acontece, valoriza as mentes mais criativas, os corpos com mais refino técnico.
Com Tite na seleção, com o Real Madrid, vimos Marcelo, ofensivamente, perto do centro do jogo, se aproximando, associando, tabelando, enganando e atacando espaço. Sabemos da capacidade e do talento que o camisa 12 tem a oferecer a equipes que jogam assim.
As 1001 possibilidades táticas
Marcelo vai jogar de lateral esquerdo, de volante, de meia, de ponta? Esse tem sido o tema central desde o anúncio da contratação e já foi assunto recorrente quando tratava-se de uma possível volta do M12 ao Brasil.
A verdade é que Marcelo pode jogar em todas essas posições. Em cada uma, oferece algo diferente. Em todas, genialidade. Como qualquer estratégia coletiva ou individual no futebol, tudo traz ganhos e perdas
Com as saídas de Calegari, Caio Paulista, a dispensa de Cris e a lesão de Jorge, hoje as opções para o Fluminense na lateral esquerda são improvisadas: Guga e Alexsander. Testados, ambos foram bem.
Independente disso, precisamos pensar em como Diniz usa o lateral esquerdo. Ele aproveitava a imposição física e velocidade de Caio Paulista para der amplitude, mas talvez não funcionaria assim como Marcelo.
Quando o Fluminense cai pela direita, o time todo balança junto. Samuel Xavier, Ganso e Árias estão sempre se associando e Keno não tem flutuado tanto por dentro como Árias faz do outro lado. Não vejo Marcelo dando amplitude e sim aparecendo como uma opção por dentro, no meio, flutuando junto com o time e atuando próximo de onde o jogo está acontecendo.
No ataque pela esquerda, Samuel Xavier costuma ter um corredor do outro lado para a inversão de jogada — garantia de qualidade no lançamento de Marcelo — , enquanto Árias flutua mais pelo meio e participa das associação. Nesse ponto, veríamos mais Marcelo como um lateral esquerdo, tabelando principalmente com Ganso, Keno e Árias.
Além da imprevisibilidade, do drible e do talento, Marcelo tem cruzamentos e passes muito precisos. Pode aproveitar bem ao entrosar com Cano para encontrar os bons desmarques do camisa 14.
Problema? Sim, como em qualquer outro time. Se jogar de lateral esquerdo, Marcelo precisará de uma cobertura maior, talvez tendo André mais contido por aquele lado, ganhando menos metros no campo do que de costume. Defensivamente, tem como ponto fraco o jogo aéreo e esse foi um problema para o Fluminense nos últimos anos. Mesmo bem fisicamente, não é um lateral de imposição física.
Como meia, poderia entrar na vaga de Keno, fazendo Árias jogar mais avançado, em função parecida como a de outros momentos no Fluminense do ano passado. O time ganha em consistência defensiva, seja com Guga ou Alexsander no primeiro momento, enquanto Marcelo teria mais liberdade para jogar próximo de Ganso e flutuar perto de onde está a bola em todos os momentos de ataque.
E naquelas situações em que Diniz “mete o louco” e coloca o Fluminense super ofensivo? Ao tirar um zagueiro para ter um outro atacante ou homem de meio, como Alan ou Lima, por exemplo, recuando André para a zaga, o Fluminense tenta ocupar mais espaços no ataque e aumentar a possibilidade de jogadas por dentro e por ambos os lados, sem perder o estilo de jogo funcional.
Marcelo poderia atuar como ponta-esquerda. Movimentando para dentro quando o time atacasse pela direita e deixando Guga avançar para ganhar profundidade ou invertendo. Se o time atacasse pelo seu lado, estaria próximo de Ganso ou Árias (que flutua por dentro também) para criar possibilidades de gol para o time.
Afinal, dá para ver que, pelas características e pela qualidade dele, Marcelo bem das ideias e bem fisicamente pode e acredito que vai entregar muitas possibilidades ao modelo de jogo aberto e livre de “posições” e “regras rígidas” do Tricolor.
Isso porque tratamos mais do que é do jogo. E de fora dele? A visibilidade, o marketing, a publicidade e o apelo ao torcedor? O resto é história para capítulos futuros.
Por Marcelo, o risco vale. Futebol é um jogo de riscos.
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