Mecanicamente

Marcus Arboés
1 min readSep 9, 2019

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06:00…

Ela me olha fingindo que sente, eu sorrio para ela fingindo que acredito. Levantamos, sem bom dia, e, cordialmente, existimos juntos na mesma cozinha.

Enfrento o trânsito com a rádio ligada para crer veementemente na falsa sensação de que o tempo passa mais rápido. E ele passa.

O porteiro sorri para mim, eu finjo que não vi. Entro, subo, aceno para os cretinos com quem eu forço diariamente uma leve interação.

Respondo minha chefe. Minto para ela, sorrio e volto a olhar para a tela do computador. Os gráficos me dizem o que eu não quero ler e eu leio exatamente o inverso.

Volto para casa. Ela me olha inexpressiva. Eu não falo nada. Jantamos, mais uma vez, no mesmo palco de silenciosas torturas de quem não aguenta mais o outro.

Deito para dormir. Ela para, me olha e se deita.

Eu fecho os olhos. De novo. Fingindo que sou você.

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Marcus Arboés
Marcus Arboés

Written by Marcus Arboés

Aqui é um pouco de mim, sem amarras. Falo do que me empolga.

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