Mecanicamente
06:00…
Ela me olha fingindo que sente, eu sorrio para ela fingindo que acredito. Levantamos, sem bom dia, e, cordialmente, existimos juntos na mesma cozinha.
Enfrento o trânsito com a rádio ligada para crer veementemente na falsa sensação de que o tempo passa mais rápido. E ele passa.
O porteiro sorri para mim, eu finjo que não vi. Entro, subo, aceno para os cretinos com quem eu forço diariamente uma leve interação.
Respondo minha chefe. Minto para ela, sorrio e volto a olhar para a tela do computador. Os gráficos me dizem o que eu não quero ler e eu leio exatamente o inverso.
Volto para casa. Ela me olha inexpressiva. Eu não falo nada. Jantamos, mais uma vez, no mesmo palco de silenciosas torturas de quem não aguenta mais o outro.
Deito para dormir. Ela para, me olha e se deita.
Eu fecho os olhos. De novo. Fingindo que sou você.