O significado de voar
Quando eu era criança, meu pai já havia voado bastante — e, na verdade, sempre estava voando. Não lembro muito bem dele, mas lembro de quando ele voava, de quando a gente o via no céu.
E eu sempre quis voar, que nem ele, mas eu sempre tive medo. Talvez fosse algo reforçado pelo trauma, pode se dizer. Afinal, quem teria 100% de coragem de fazer aquilo que seu pai morreu fazendo?
Não sei qual significado eu daria para o primeiro voo da minha vida. O significado direto? Estar dentro de um avião ou ter conquistado um sonho meu com as minhas próprias mãos, criando a minha própria liberdade.
Em Março de 2019, comecei a planejar uma viagem para fora do país. Só de imaginar, eu sentia um embrulho no estômago. E nem sabia ao certo como iria conseguir juntar o dinheiro para ir. Meu destino era Portugal.
Consegui meu primeiro estágio e nos finais de semana eu sempre estava fotografando ou fazendo algum extra. Nisso, dá para perceber o quanto de tempo tomei para estar realizando um sonho e, por consequência, o quanto eu sacrifiquei.
De tempo, de saúde mental, de esforço, de suor e de pessoas. Passei muito tempo distante de gente que eu gosto, inclusive da minha família. Mas a viagem foi um grande ponto para ver o quanto eu necessito deles, ainda.
Pisando no solo de Lisboa, a primeira coisa que senti foi um frio, completamente diferente de tudo o que eu já havia sentido antes. Depois, o medo do mundo, um sentimento completamente novo, aliado à vontade de voltar para casa.
Quando cheguei, as coisas pareciam estar dando muito errado para um primeiro dia na Europa. Não tinha um lugar pra dormir, uma casa para voltar, mas recorri a quem sempre recorri em toda a minha vida, minha mãe.
Minha mãe me ajudou, naquele dia, mas não só naquele. E não só ela. Todas as pessoas que moram comigo, diariamente me deram suporte para realizar um sonho. Quantas vezes meu irmão me ajudou? Nem dá para contar nos dedos das mãos.
A gente sempre tenta criar sensações de crescimento, onde somos os donos dos nossos próprios sonhos e os realizadores mor deles, mas nem tudo se constrói sozinho. Foi isso que descobri em Portugal, é isso que eu chamo de voo.
O avião do meu pai não voava sozinho, ele só era o piloto. Tinha um co-piloto, um mecânico, um engenheiro e várias pessoas que participavam de todas as etapas até que o avião voasse. A responsabilidade maior é do condutor e é ele quem sente a máquina de verdade.
Eu sou o condutor de algo que não construí sozinho, e talvez eu não tenha valorizado o suficiente aqueles que me fizeram voar, sair do chão, ter um nome e ter orgulho de tudo o que eu planejei e fiz.
Realizei um sonho… um não, vários. Várias coisas, grandes e pequenas: andar de trem, subi uma serra com um castelo no topo, pisei em solo europeu, visitei o Estádio do Dragão, conheci gente de todos os cantos do mundo e me senti maduro e responsável, quando sozinho.
De vários aprendizados naquelas duas semanas, o maior foi o de que eu sou caseiro, gosto muito de ficar no meu canto. Talvez seja esse o momento de aproveitar meu tempo com quem me ama e acredita na minha vontade de realizar os meus sonhos.
E eu ainda tenho muitos.
E tenho eles aqui. Do meu lado.